terça-feira, 13 de janeiro de 2015




Canjerê: s.m. Bras. Ajuntamento de pessoas, geralmente negros, para danças ou cerimônias rituais.

“Canto, crítica e educação em terreiros

“Com tanta escola nesse mundo, / vovó Porque
Não aprendeu a ler ? /ela aprendeu feitiçaria – na Umbanda – / Na mesa
do canjerê.”

Repetida enfaticamente, essa é uma das cantigas
ouvidas na Tenda Espírita Ajuda Quem Tem
Fé, localizada no bairro de Quintino Bocaiúva,
no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 2010. Uma
audição mais atenta, assim como de outros cânticos
semelhantes, logo permite concluir que as cantigas
da umbanda não estão soltas, perdidas no tempo
e no espaço, nem vinculadas somente ao contexto
da religião. Elas não se referem apenas a mitos
religiosos africanos e afro-brasileiros. Ao contrário,
esses cânticos estão vinculados ao processo histó-
rico no qual seus autores (anônimos, em grande
parte), cantores e ouvintes estão inseridos. E mais:
muitas vezes chegam a comentá-lo de modo crítico
e irônico. Assim, refletindo sobre o contexto social,
são intervenções nele.
Esse é o caso da cantiga que abre esse texto,
a qual remete às relações entre as religiões
afro-brasileiras e o campo da Educação. A esse
respeito, seus versos são bastante claros. Ao
contrapor a quantidade de escolas existentes à
persistência do analfabetismo entre as pessoas
que cantam, ela é uma crítica direta à exclusão
escolar sofrida pelos umbandistas, em geral, e
pelos afrodescendentes, em particular. Como não
há especificação de quando foi feita e passou a
ser cantada, essa crítica refere-se a um tempo
amplo que abarca desde um passado indefinido,
que se estende para além de quando a umbanda
foi anunciada publicamente, no início do século
XX, e alcança o período da escravidão no Brasil,
do tráfico negreiro e da diáspora africana,
até o presente, quando continua a ser cantada a
plenos pulmões em muitos terreiros das cidades
brasileiras. Nessa abrangência temporal e ao falar
nas escolas “pelo mundo”, a cantiga delineia
uma espacialidade também vasta, que, abarcando
regiões longe do Rio de Janeiro, a partir de onde
a umbanda foi divulgada, conecta Brasil, África
e além. Em uma leitura livre, é possível entrever
nesse cântico um protesto contra todo e qualquer
processo de exclusão.
A primeira parte da cantiga, com dois versos, é
explicitamente um questionamento do status quo,
com sua pergunta firme sobre a manutenção da
carência para uns em meio à fartura para outros.
O trecho seguinte, também com dois versos, deixa
igualmente evidente o seu sentido, de valorização
da cultura do terreiro. Entretanto, com relação à
música, essas partes são um tanto contrastantes. O
primeiro segmento é homogêneo e linear, preparatório
do seguinte, que é mais diferenciado, pois
o ritmo acelera enquanto os tons variam, sobem e
descem, sobretudo na expressão “minhas almas”,
que na transcrição foi posta entre travessões e
com um ponto de exclamação ao final, de modo a
traduzir graficamente a interjeição que nomeia os
espíritos cuja proteção é invocada. Essa variação
rítmica e tonal caracteriza a segunda parte como
clímax da cantiga, segmento no qual se defende
o terreiro como lugar de ensino e aprendizagem,
bem como os seus integrantes como sujeitos ativos
nesses processos sociais. Em síntese, a cantiga diz
que, embora não aprendam a ler (e a escrever),
os membros do terreiro não deixam de produzir,
transmitir e preservar conhecimento.
A citada Maria Conga é uma das entidades que
incorporam em alguns membros do culto em giras
de preto velho. Homem ou mulher, esse tipo sociocultural
é muito caro às culturas afro-descendentes
no Brasil que se constituem valorizando os vínculos
com a ancestralidade, apoiando-se em suas matrizes
africanas. Nesse contexto, pretos velhos e pretas
velhas representam resistência, sabedoria, resignação
e humildade. São figuras fundamentais nos
processo de geração, salvaguarda e transmissão de
ideais, valores, saberes e fazeres nas comunidades
que ajudam a constituir, os terreiros, e naquelas às
quais estes se vinculam, seja a vizinhança próxima
ou distante. Na cantiga, Maria Conga é apresentada
como detentora de conhecimentos que foram adquiridos
por meio de uma aprendizagem específica,
em comparação a quem não tem oportunidade de
aprender a ler, a despeito das muitas escolas existentes.
Portanto, Maria Conga é uma sábia nesse
contexto. É também uma mestra, pois tem muito a
ensinar “na mesa do canjerê”.
O Dicionário Houaiss apresenta “canjerê” como
“agrupamento de pessoas para prática de feitiçarias”
e como “ato de feitiçaria; bruxaria, feitiço, Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 35, p. 177-185, jan./jun. 2011 179
Roberto Conduru
mandinga” (HOUAISS). Nei Lopes diz ser a “antiga
denominação das reuniões religiosas dos negros
no Brasil; feitiço, mandinga” (2004, p.163). Na
cantiga, a “mesa do canjerê” caracteriza, portanto,
as instalações do próprio terreiro, permitindo ver
como a escola e o terreiro estão conectados também
por meio do mobiliário, da cultura material. Com
o quê é possível concluir que, na mesa do terreiro,
assim como nas carteiras escolares, é possível
aprender e ensinar.
Desse modo, a segunda parte da cantiga defende
o terreiro como lugar e seus membros como sujeitos
nos processos de ensino e aprendizagem. O que
afirma a feitiçaria como um saber. Um saber que
é praticado pelos adeptos da religião no contexto
social, em paralelo aos ensinamentos adquiridos
por outrem na escola. Nessa comparação, o feitiço
não é apenas uma via de acesso aos espíritos de
progenitores míticos e de ancestrais cultuados, pois
também auxilia os membros do terreiro em suas
inserções no contexto social que os exclui. Assim,
a cantiga apresenta o terreiro como uma escola de
feitiçaria que é tanto uma escola religiosa quanto
uma escola para a vida.
Articulando a escola e o terreiro como lugares
de ensino e aprendizagem, a cantiga abre caminho
para comparar os efetivos papéis dessas institui-
ções na capacitação das pessoas, em geral, e dos
afro-descendentes, em particular, como sujeitos
sociais. E abre a reflexão sobre serem antagônicas
ou complementares essas instituições, bem como
sobre distâncias


 

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