quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Na Umbanda, assim como afirmam os Pretos Velhos…

Repassando do Jornal, minha Umbanda  de mãe Monhica Caraccio

Na Umbanda, assim como afirmam os Pretos Velhos…


Axé pessoal. Quero chamar a atenção para um texto que meses atrás publiquei no JUCA – Jornal de Umbanda Carismática, sob o titulo “FALA agente ativo da magia” de Joseph KI- Zerbo (Coordenador do livro “História geral da África”, volume 1 produzido pela UNESCO). Percebam a importância da obra, o nível cultural do texto, do escritor e ainda a oportunidade de um conhecimento nato das tradições africanas, ‘saindo’ da psicografia ou da orientação espiritual e ‘entrando’ em um nível acadêmico que percorre o mundo inteiro.
Vale salientar que quando nos referimos às tradições africanas, falamos de nossas origens inclusive religiosas, na qual a Umbanda, os Pretos Velhos, os Orixás e toda nossa ancestralidade transcorrem. Portanto, uma leitura como essa, mais que conhecer a África ou uma tradição, é conhecer alguns fundamentos da Umbanda e como nosso espírito deve se comportar para estar em harmonia com nossa ancestralidade.
Boa leitura a todos e observem com atenção o olhar para a magia, a importância da fala e a forma que a mentira é caracterizada. Percebam que a Umbanda tem esses fundamentos em sua doutrina, afinal, para a Umbanda, assim como afirmam os Pretos Velhos, nem a magia nem o destino são maus em si. A utilização que deles fazemos os tornam bons ou maus, a fala humana anima, coloca em movimento e suscita as forças que estão estáticas nas coisas  e a mentira uma verdadeira lepra moral.
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“A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não é o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitem, assim como o baobá já existe em potencial em sua semente” (Tierno Bokar)
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A fala, agente ativo da magia-

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História Geral da África- Metodologia e Pré- História da África – Volume I
de J. KI- Zerbo (Coordenador do Volume) Ática – Unesco
Deve-se ter em mente que, de maneira geral, todas as tradições africanas postulam uma visão religiosa do mundo. O universo visível é concebido e sentido como o sinal, a concretização ou o envoltório de um universo invisível e vivo, constituído de forças em perpétuo movimento. No interior dessa vasta unidade cósmica, tudo se liga, tudo é solidário, e o comportamento do homem em relação a si mesmo e em relação ao mundo que o cerca (mundo mineral, vegetal, animal e a sociedade humana) será objeto de uma regulamentação ritual muito precisa cuja forma pode variar segundo as etnias ou regiões.
A violação das leis sagradas causaria uma perturbação no equilíbrio das forças que se manifestaria em distúrbios de diversos tipos. Por isso a ação mágica, ou seja, a manipulação das forças, geralmente almejava restaurar o equilíbrio perturbado e restabelecer a harmonia, da qual o Homem, como vimos, havia sido designado guardião por seu Criador.
Na Europa, a palavra “magia” é sempre tomada no mau sentido, enquanto que na África designa unicamente o controle das forças, em si uma coisa neutra que pode se tomar benéfica ou maléfica conforme a direção que se lhe dê. Como se diz: “Nem a magia nem o destino são maus em si. A utilização que deles fazemos os tornam bons ou maus”.
A magia boa, a dos iniciados e dos “mestres do conhecimento”, visa purificar os homens, os animais e os objetos a fim de repor as forças em ordem. E aqui é decisiva a força da fala.
Assim como a fala divina de Maa Ngala* animou as forças cósmicas que dormiam, estáticas, em Maa, assim também a fala humana anima, coloca em movimento e suscita as forças que estão estáticas nas coisas. Mas para que a fala produza um efeito total, as palavras devem ser entoadas ritmicamente, porque o movimento precisa de ritmo, estando ele próprio fundamentado no segredo dos números. A fala deve reproduzir o vaivém que é a essência do ritmo.
Nas canções rituais e nas fórmulas encantatórias, a fala é, portanto, a materialização da cadência. E se é considerada como tendo o poder de agir sobre os espíritos, é porque sua harmonia cria movimentos, movimentos que geram forças, forças que agem sobre os espíritos que são, por sua vez, as potências da ação.
Na tradição africana, a fala, que tira do sagrado o seu poder criador e operativo, encontra-se em relação direta com a conservação ou com a ruptura da harmonia no homem e no mundo que o cerca.
Por esse motivo a maior parte das sociedades orais tradicionais considera a mentira uma verdadeira lepra moral. Na África tradicional, aquele que falta à palavra mata sua pessoa civil, religiosa e oculta. Ele se separa de si mesmo e da sociedade. Seria preferível que morresse, tanto para si próprio como para os seus.
O chantre do Komo Dibi de Kulikoro, no Mali, cantou em um de seus poemas rituais:
“A fala é divinamente exata,
convém ser exato para com ela”. 
“A língua que falsifica a palavra
vicia o sangue daquele que mente.”
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O sangue simboliza aqui a força vital interior, cuja harmonia é perturbada pela mentira. “Aquele que corrompe sua palavra, corrompe a si próprio”, diz o adágio. Quando alguém pensa uma coisa e diz outra, separa-se de si mesmo: Rompe a unidade sagrada, reflexo da unidade cósmica, criando desarmonia dentro e ao redor de si.
Agora podemos compreender melhor em que contexto mágico-religioso e social se situa o respeito pela palavra nas sociedades de tradição oral, especialmente quando se trata de transmitir as palavras herdadas de ancestrais ou de pessoas idosas. O que a África tradicional mais preza é a herança ancestral. O apego religioso ao patrimônio transmitido exprime-se em frases como: “Aprendi com meu Mestre”, “Aprendi com meu pai”, “Foi o que suguei no seio de minha mãe”.

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