domingo, 13 de março de 2011

Quaresma

Quaresma


>

Entro nessa Quaresma sem fantasia, disposto às abstinências que

>resgatam, no mais íntimo de mim mesmo, a minha verdadeira identidade.

>Calarei a língua ferina e não macularei a fama alheia

>exposta em público no varal de minhas cordas vocais.

>Não darei ouvidos a inconfidências, nem ao ruído

>ensurdecedor das palavras vãs de quem só escuta a própria voz.

>Fecharei o olhos para ver melhor e abrirei as janelas

>à revoada dos anjos.

>Contemplarei as montanhas ocas de minha terra

>e derramarei uma lágrima por seus úteros arrancados

>e sonegados ao meu povo.

>Nesta Quaresma, riscarei de meu dicionário o vocábulo

>competitividade e com aquarelas de utopias

>gravarei no coração solidariedade.

>Irei ao encontro de quem ainda luta por direitos animais:

>comer, beber, educar a cria e abrigar-se das intempéries.

>Só assim costurarei minha humanidade esgarçada.

>Jejuarei da ânsia consumista e ofertarei meu supérfluo

>tão necessário ao próximo.

>Abrirei a janela do carro e afagarei

>as crianças de rua, filhos de minha imobilidade

>frente a tantas injustiças.

>Pagarei, com juros, a minha dívida social.

>Farei de Jesus parceiro de aventuras

>e deixarei que o seu Espírito engravide o meu.

>Buscarei o silêncio orante e meditarei

>para inebriar-me da espiritualidade do conflito.

>Adotarei o Sermão da Montanha como estatuto pessoal

>e assim acertarei meus passos nas trilhas da vida.

>Arrancarei toda erva daninha - ciúme, inveja, ira -

>do canteiro de meus amores

>e cultivarei copas frondosas de quaresmeiras

>coloridas de ternura.

>Serei perdulário com o bom humor

>e espalharei alegria como o ar

>que nos é dado a respirar.

>Nesta Quaresma,

>desfraldarei a bandeira de minha indignidade

>e revelarei esperanças que,

>olhos no futuro,

>me fazem acreditar num belo horizonte.

>

Nesta Quaresma, participarei da Campanha da Fraternidade,

>peregrino solitário e solidário,

>irei às fontes do Transcendente.

>Ao encontrar o poço,

>mergulharei como um menino em suas águas profundas,

>até que o Pai de Amor me acolha em seus braços,

>dando-me de beber o vinho pascal do homem novo.

>

>Frei Betto

Nenhum comentário: